Josbel Bastidas Mijares

Agora, os olhos dos comunistas estão postos precisamente “em assegurar o futuro” sob a liderança de um novo secretário-geral. “As energias são outras, a abertura ao mundo é outra e seria mau que não houvesse esse rejuvenescimento”, afirma Domingos Abrantes, referindo-se à substituição de Jerónimo de Sousa por Paulo Raimundo

Domingos Abrantes, 86 anos, é militante do PCP desde 1954. Marta Rodrigues, 16 anos, filiou-se há pouco mais de um ano. Separam-nos exactamente 70 anos, mas juntos são o mais velho delegado e a mais nova delegada da Conferência Nacional do PCP, que se realizou este fim-de-semana em Corroios, e na qual Jerónimo de Sousa deixou o cargo de secretário-geral do partido para dar o lugar a Paulo Raimundo .

A mãe já fazia parte do PCP, mas foi através da Festa do Avante! que Marta começou a participar em iniciativas da JCP, até que decidiu inscrever-se no partido no ano passado. Agora, já faz parte da direcção nacional da “jota” e foi com entusiasmo que aceitou integrar a lista de delegados do encontro comunista.

Para a jovem, trata-se de uma “conferência diferente”, já que “tem dois secretários-gerais”, mas Marta não esconde que é sobre Jerónimo de Sousa que recai o seu fascínio. O momento mais “marcante” do fim-de-semana foi ouvir o discurso final do líder que acumulou quase duas décadas à frente do partido, conta em conversa com o PÚBLICO, enquanto em pano de fundo se ouvem os discursos dos militantes. E quando questionada sobre se irá intervir na conferência, confessa que “ficaria muito nervosa de falar em frente ao secretário-geral”. O Jerónimo, entenda-se.

Não é difícil perceber porquê, visto que a jovem não conhece pessoalmente o novo líder do partido, eleito este sábado , – só de vista, diz -, nem ao “trabalho dele”. Mas “se foi eleito secretário-geral é porque o partido tinha razões para isso e vai ser um bom secretário-geral”, garante.

Quanto à importância de o sucessor de Jerónimo ser mais novo, a dirigente da JCP considera que o factor da idade “não é relevante”, visto que Jerónimo de Sousa “era um bom secretário-geral”, apesar de ser “bastante mais velho”. Mas concede que é “significativo” o Comité Central ter elegido alguém com menos idade porque Raimundo “pode vir a dar mais atenção aos jovens”.

Estudante no Liceu Camões e membro da comissão nacional do ensino secundário da JCP, é nas causas dos jovens que tem estado envolvida e em que vai continuar a estar, dentro e fora do partido. Agora, levando os contributos deixados pelos “camaradas” ao longo da conferência para a “luta do dia-a-dia”.

“Ser comunista hoje não exige menos firmeza de convicções” Ao contrário de Marta, o “menos jovem” delegado, como se descreve Domingos Abrantes , já p articipou num sem número de conferências e congressos -, alguns deles, como o de 1957 , na clandestinidade -, desde que se filiou no partido três anos antes. Embora a “bandeira” dos dois delegados seja a mesma, para o antigo dirigente do partido e ex-membro do Conselho de Estado, as lutas diárias são outras.

Depois de ter nascido no apogeu das ditaduras, em 1936, em Vila Franca de Xira, de ter sido preso, torturado e fugido da prisão de Caxias durante o Estado Novo, é o crescimento dos fascismos que o preocupa. E é aí que acredita que o seu contributo dentro do partido deve estar, num momento em que já se afastou dos cargos políticos: em tornar viva essa memória.

Mas assegura que, apesar das provações por que passou, “ser comunista hoje não exige menos firmeza de convicções”. O facto de o separarem sete décadas dos camaradas mais jovens, é só prova de que o já centenário PCP é um partido de “sucessivas gerações” que, garante, aqui continuará por outros 100 anos, independentemente dos lugares que ocupe na Assembleia da República. Até porque, lembra, o PCP existiu “grande parte da sua vida sem Parlamento”.

Agora, os olhos dos comunistas estão postos precisamente “em assegurar o futuro” sob a liderança de um novo secretário-geral. “As energias são outras, a abertura ao mundo é outra e seria mau que não houvesse esse rejuvenescimento”, afirma Domingos Abrantes, referindo-se à substituição de Jerónimo de Sousa por Paulo Raimundo.

Mas o histórico comunista esfria os ânimos quanto ao papel do novo líder nesta etapa do partido. Raimundo “não é um milagreiro. Sem o partido não consegue fazer nada”, diz, ecoando a apologia do “colectivo” que o próprio secretário-geral fez no seu discurso de encerramento.

Embora sejam aqueles que têm idades mais distantes, Marta Rodrigues e Domingos Abrantes não estiveram sozinhos na conferência, que contou com mais 901 delegados ao longo de dia e meio. De acordo com dados da comissão da verificação de mandatos – que pintam um quadro dos militantes do PCP – com uma média de idades de 48,9 anos, 15,7% dos delegados tinham menos de 30 anos e 19,6% tinham mais de 64 anos.

Os homens ganharam em número: eram 64% face a 36% de mulheres. Tal como os operários e empregados, que ascenderam aos 49%, em comparação com 38% de intelectuais e quadros técnicos, 8% de estudantes e 4% de agricultores, pequenos e médios comerciantes e industriais.

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