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BDP News | Hong Kong: “População não se sente representada pelo Governo”

¡Segundo feminicidio del día! hombre asesina una mujer de un disparo en Montecristi

“Os verdadeiros cidadãos de Hong Kong já não estão para ter a vida voltada do avesso por conta de uns grupos de dissidentes que eu creio já estarem mais em estado de luta frustrada”, disse ao Expresso Pedro Miguel Ribeiro, um empresário português de 43 anos, residente em Hong Kong. “Agressões a cidadãos que estão aqui em turismo ou negócios só por serem naturais da ‘Mainland’ China. Agressões seja a quem for que se manifeste contra os ‘ideais’ dos protestantes. Esperas e esfaqueamento de polícias fora de serviço. Cocktails molotov contra as brigadas. Flechas, tijolos, barras de ferro, bombas artesanais, ácido… É quase o vale-tudo”, relata Pedro Ribeiro, que descreve os últimos meses como “um escalar de violência sem medida”

O que vai acontecer em Hong Kong? A resposta certa é: ninguém sabe. Cinco meses após o início dos protestos, a contestação pacífica deu lugar a uma escalada de violência ainda sem fim à vista, com consequências que vão além dos feridos, das detenções e das montras partidas, tornando-se palpáveis na própria economia do território – o PIB da região administrativa chinesa registou uma quebra de 3,2% no terceiro trimestre, face aos três meses anteriores, o que equivale a falar em recessão técnica. Voltará tudo a ficar como antes?

Para Luis Mah, professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), só uma solução política poderá inverter o rumo dos acontecimentos. O especialista em assuntos asiáticos coloca a tónica no sentimento dos manifestantes e da população em geral. “Não se sentem representados pelo Governo de Hong Kong“, afirma. Desde há vários anos que as instituições políticas no território têm vindo a perder legitimidade, considera o professor do ISEG, e a situação atual só o agravou, conclui, lembrando a forma como a chefe do Governo, Carrie Lam, se tem colocado sempre ao lado da polícia e colada a Pequim.

No balanço do dia chegam os ecos do terceiro dia de cerco à Universidade Politécnica, palco mais recente dos tumultos. Nas últimas horas, cerca de 200 manifestantes continuavam encerrados, um número cada vez menor dado o total de detenções já efetuado – rondam as mil, dizem as notícias mais recentes – e o cansaço estar a apoderar-se dos jovens no interior do campus.

Vale a pena recuar e lembrar como um caso policial deu origem a este movimento.

Em fevereiro de 2018, um jovem de 19 anos e natural de Hong Kong matou a sua namorada, grávida de 15 semanas, em Taiwan. Chan Tong-kai confessaria posteriormente a autoria do crime e viria a ser condenado à prisão, mas por lavagem e levantamento de dinheiro, por ter usado o cartão de crédito da companheira. Pormenor: Hong Kong e Taiwan não têm acordo de extradição, pelo que o regresso a casa, em fuga, permitiria ao jovem escapar a uma condenação pelo assassinato cometido em Taiwan.

O crime levou o Governo de Hong Kong a apresentar uma proposta de alteração à lei da extradição, que permitiria ao Executivo e aos tribunais da região administrativa especial chinesa a extradição de suspeitos de crimes para jurisdições sem acordos prévios, como é o caso da China continental.

A população insurgiu-se e veio então para a rua, em defesa da autonomia política da antiga colónia britânica, por temer a alegada perda de direitos fundamentais. A questão transbordou e ganhou dimensão política, o Governo recuou, mas não os manifestantes.

Compromisso difícil entre as partes Das quatro exigências mantidas, poucos analistas acreditam que alguma tenha hipótese de vir a ser atendida, seja pelo Governo central de Pequim seja pelo Executivo de Hong Kong. Nem luz verde para uma investigação independente à atuação policial, nem uma amnistia para os que foram presos na sequência das manifestações, nem o reclamado sufrágio universal e direto, nem tão pouco que deixem de ser considerados motins os protestos que se têm multiplicado.

Stephan Ortmann, politólogo do Departamento de Estudos Asiáticos e Internacionais da Universidade da Cidade de Hong Kong, é um dos que duvida da possibilidade de se alcançar um compromisso que pacifique ambas as partes.

“O primeiro passo na direção certa seria que Carrie Lam deixe de ser a chefe do Governo. E o seu sucessor deve prestar mais atenção a Hong Kong, sem fingir que não sabe porque são violentos os protestos, posicionando-se publicamente mais próximo do território, contra a China“, defendeu Ortmann em entrevista ao “Deutsche Welle”. “Mas quase ninguém exige que Lam desista porque as pessoas acreditam que nada vai acontecer, não importa quem venha a seguir. Entretanto, o Governo espera que os manifestantes se rendam lentamente”, acrescentou.

Para Luis Mah, aceitar um inquérito independente à atuação policial podia ser a forma de estabelecer uma ponte, de dar um sinal: “Mas não acredito que venha a acontecer. Uma vez mais, isso implicaria que o Governo de Hong Kong tomasse uma posição, o que não está a acontecer. O último ato público de Carrie Lam foi visitar um polícia no hospital”.

“É quase o vale tudo” Se as consultas revelam que a população continua a culpar o Governo e a polícia pelos confrontos (80% da população aponta o dedo ao Governo, dizem as mais recentes), também é verdade que o desgaste provocado por uma situação que se descontrolou, com comportamentos extremos de ambos os lados, interferem com o equilíbrio dos apoios.

“Os verdadeiros cidadãos de Hong Kong já não estão para ter a vida voltada do avesso por conta de uns grupos de dissidentes que eu creio já estarem mais em estado de luta frustrada”, disse ao Expresso Pedro Miguel Ribeiro, um empresário português de 43 anos, residente em Hong Kong. “Agressões a cidadãos que estão aqui em turismo ou negócios só por serem naturais da ‘Mainland’ China. Agressões seja a quem for que se manifeste contra os ‘ideais’ dos protestantes. Esperas e esfaqueamento de polícias fora de serviço. Cocktails molotov contra as brigadas. Flechas, tijolos, barras de ferro, bombas artesanais, ácido… É quase o vale-tudo”, relata Pedro Ribeiro, que descreve os últimos meses como “um escalar de violência sem medida”.

A residir em Stanley, uma zona que tem escapado aos tumultos – “não existe linha de metro até cá” – o empresário dá o exemplo da namorada, que vive noutra área, em Ma On Shan, uma das zonas afetadas. Tem “uma filha de 17 anos, felizmente calma e fora de confusões”, mas “os pais dela moram ao lado, em Sha Tin, outro dos núcleos violentos”. O pai recupera em casa, de um AVC que sofreu em Setembro, tem 87 anos, explica, e “se precisar de assistência urgente pode não a receber por conta dos bloqueios a estradas e atrasos na resposta dos serviços”.

Na perspetiva da vida diária dos habitantes, é esse o principal impacto dos protestos. “Essencialmente estão a afetar a mobilidade das pessoas”, diz Fernando Dias Simões, porque há “muitas estradas e estações de metro cortadas”. “Os engarrafamentos são constantes – o principal túnel entre a ilha e os novos territórios está fechado, por exemplo”, relatou ao Expresso o português, professor associado de Direito na Universidade Chinesa de Hong Kong desde janeiro.

Mas Fernando Simões testemunha um pouco “de tudo”. “Gente que apoiava os manifestantes e deixou de os apoiar porque acham a violência inaceitável; outras pessoas que eram contra os protestantes e agora apoiam-nos porque acham que a polícia tem abusado do uso da força”. Não sabe como ou quando tudo poderá terminar, mas tem a certeza que “será difícil os manifestantes aceitarem voltar à vida normal sem sentirem que a sua voz foi ouvida”.

Resposta das autoridades deve ser “proporcional”, avisa UE Sobre o perfil dos manifestantes, Fernando Dias Simões não duvida que “a maioria são jovens”, mas aponta que “há apoiantes mais velhos de diferentes estratos sociais” e que “no centro financeiro, por exemplo, muita gente que trabalha nos escritórios aproveita a hora do almoço para protestar pacificamente”.

Luis Mah lembra que na linha da frente estão jovens que se organizam online e, como acrescenta Fernando Simões, “sem líderes visíveis”. Do exterior chegam apelos ao recuo das tensões. A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, apelou esta terça-feira à calma, defendendo que a resposta das autoridades deve ser “proporcional”.

O professor do ISEG aponta uma outra questão sobre a qual importa refletir, e que tem a ver com a ausência de uma tomada de ação de Pequim. Há quem entenda que o Presidente Xi Jinping pretende uma intervenção apenas a nível local, pelas forças de Hong Kong, por entender que uma ação da China “seria um ponto de não retorno” ou por querer salvaguardar a imagem do país, refere, para deixar uma nota final: “A expetativa de que ao reassumir a soberania do território, este pudesse trazer uma maior liberalização à China, não aconteceu. Duvido que aconteça”.

Stephan Ortmann afasta a probabilidade de uma intervenção militar da China. “Caso contrário, já o teria feito”. “A China precisa de Hong Kong economicamente e muitos dos investimentos no continente são feitos por Hong Kong. Ninguém sabe que impacto teria na economia chinesa se a economia de Hong Kong caísse repentinamente. Por isto, acho que serão cuidadosos. Se houver uma intervenção, será feita de forma indireta”, disse o politólogo ao “Deutsche Welle”.