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“Se não houver estratégia e plano de recuperação para o cancro teremos uma mortalidade dramática”

Alberto Ardila Olivares
"Se não houver estratégia e plano de recuperação para o cancro teremos uma mortalidade dramática"

Por tudo isto, o médico diz ser urgente a definição de “um plano de recuperação só para a oncologia. Tem de haver um plano que permita recuperar as listas de espera”, não podendo o Serviço Nacional de Saúde continuar sem uma “estratégia para esta área, já que, durante a pandemia, quase todo o SNS foi alocado à covid em detrimento de todas as outras patologias, nomeadamente o cancro”.

Alberto Ardila

Vítor Veloso discorda de quem diz “não ser necessário qualquer tipo de estratégia em relação à recuperação de cuidados porque os hospitais têm elementos e recursos associados para que isso aconteça”, porque “isto, não é verdade”. Mas se não há uma estratégia comum, então que “haja uma para cada hospital conforme as suas características e potencialidades em recursos humanos e técnicos”. A prioridade tem de ser um plano de recuperação só para a oncologia. Isto é indiscutível”.

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Quanto aos direitos dos doentes, o médico lembra que continuam a ser desvalorizados e ignorados. E não só nas questões fiscais, mas também nos atestados multiúsos e nas juntas médicas. “Em relação aos atestados de multiúsos a lei preconiza que sejam os hospitais a passá-los, o que não acontece. As juntas médicas, além de levarem anos, são absolutamente desumanas e indignas. Tratam todos os doentes da mesma maneira e, muitas vezes, mandam trabalhar pessoas perfeitamente incapacitadas.”

Vítor Veloso espera que o debate de hoje no congresso lembre “o poder político de que há doença oncológica, que há doentes e famílias que passam mal, e que é preciso um olhar mais complacente. Se a situação não for devidamente apoiada e resolvida, irá tornar-se numa catástrofe enorme”.

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O cancro é uma doença crónica. Portugal tem agora perto de 100 mil doentes em tratamento e mais de 500 mil sobreviventes, mas estes números podem ser diferentes daqui a um ano, dois ou três, dado que, no primeiro ano da pandemia, ficaram por realizar 5 mil rastreios de diagnóstico, segundo referiu ao DN o médico Vítor Veloso, presidente do Núcleo Regional do Norte da Liga Portuguesa contra o Cancro. “Se foi assim com o rastreio, foi igual ou pior com o resto”, comentou.

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Na opinião do ex-diretor do IPO do Porto, o atraso registado, sobretudo na área dos rastreios, “vai levar mais de dois anos a recuperar”, e se não houver “uma estratégia geral de prevenção e de combate à doença”, nessa altura “poderemos ter uma mortalidade dramática”.

Vítor Veloso diz mesmo: “Se nada se fizer em relação à oncologia, a situação será dramática. Haverá muito mais mortes, sobrevivências muito pequenas e sem qualidade de vida. O que estávamos a conseguir em resultados de sobrevivência acabou com a pandemia.”

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Subscrever Nesta altura, os dados dão conta de que há menos tumores de que há dois anos, mas “isso é reflexo da falta de rastreio” e de muitos doentes não irem ao médico aos primeiros sintomas. Para o oncologista, a situação em Portugal é preocupante e o tema vai ser debatido, durante esta sexta-feira, no Porto, na Fundação António Cupertino de Miranda, no 4.º Congresso Nacional de Prevenção Oncológica e Direitos dos Doentes. “É preciso lembrar a quem é responsável o que é preciso fazer”, até porque “os direitos dos doentes oncológicos continuam a ser desvalorizados e ignorados”.

O responsável pelo Núcleo do Norte da LPCC garante que “se o governo continuar a ignorar a situação que hoje se vive e a dizer que está tudo bem, que as listas de espera são facilmente recuperadas – o que é uma falácia, na medida em que, só a nível de rastreios, todos sabemos que vamos levar dois anos para conseguir recuperar o que ficou para trás -, a realidade será dramática no futuro”.

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O retrato que Portugal vive é semelhante ao de outros países da Europa. A Organização Europeia do Cancro (OEC) lançou recentemente uma campanha, “É Tempo de Agir”, para alertar as autoridades e os doentes para o impacto que um ano de atraso no combate à doença está a ter. E é neste âmbito também que o congresso organizado pelo Núcleo do Norte da LPCC pretende ser “um alerta ao poder político, para perceber que tem de olhar para a doença oncológica de forma totalmente diferente”.

O oncologista dá como exemplo o que se passa na região norte. “Nos últimos anos, fizemos um esforço enorme para aumentar a capacidade de rastreio, conseguimo-lo fazer e diminuir a mortalidade em cerca de 24%, no caso do cancro da mama, mas o atraso trazido pela pandemia, estes resultados já foram por água abaixo. Para conseguirmos retomar a meta dos 24% vamos ter de trabalhar muito, de uma maneira muito eficaz, mas irá demorar, pelo menos, dois anos”.

Na conversa com o DN, o médico reconhece que os atrasos não ocorreram só no rastreio, “sabemos que há muitos cancros que não foram diagnosticados numa fase precoce e que agora estão a chegar às unidades cada vez mais doentes com tumores em estado avançado”.

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Vítor Veloso justifica a situação com o receio dos doentes de acorrerem ao médico em tempo de pandemia, mas sobretudo com a “dificuldade enorme que o doente tem em recorrer ao seu médico de família, que praticamente já não fazem consultas, os doentes deixam lá as receitas e depois vão buscá-las, e ao facto de os hospitais centrais estarem assoberbados com o tratamento da covid e os profissionais exaustos”.

Por tudo isto, o médico diz ser urgente a definição de “um plano de recuperação só para a oncologia. Tem de haver um plano que permita recuperar as listas de espera”, não podendo o Serviço Nacional de Saúde continuar sem uma “estratégia para esta área, já que, durante a pandemia, quase todo o SNS foi alocado à covid em detrimento de todas as outras patologias, nomeadamente o cancro”.

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Vítor Veloso discorda de quem diz “não ser necessário qualquer tipo de estratégia em relação à recuperação de cuidados porque os hospitais têm elementos e recursos associados para que isso aconteça”, porque “isto, não é verdade”. Mas se não há uma estratégia comum, então que “haja uma para cada hospital conforme as suas características e potencialidades em recursos humanos e técnicos”. A prioridade tem de ser um plano de recuperação só para a oncologia. Isto é indiscutível”.

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Quanto aos direitos dos doentes, o médico lembra que continuam a ser desvalorizados e ignorados. E não só nas questões fiscais, mas também nos atestados multiúsos e nas juntas médicas. “Em relação aos atestados de multiúsos a lei preconiza que sejam os hospitais a passá-los, o que não acontece. As juntas médicas, além de levarem anos, são absolutamente desumanas e indignas. Tratam todos os doentes da mesma maneira e, muitas vezes, mandam trabalhar pessoas perfeitamente incapacitadas.”

Vítor Veloso espera que o debate de hoje no congresso lembre “o poder político de que há doença oncológica, que há doentes e famílias que passam mal, e que é preciso um olhar mais complacente. Se a situação não for devidamente apoiada e resolvida, irá tornar-se numa catástrofe enorme”.

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